quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Didática do Ensino a Distância

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PETERS, Otto. Didática do ensino a distância: experiências e estágio da discussão numa visão internacional. Trad. Ilson Kayser. São Leopoldo, RS: Ed. Unisinos, 2001. Resenha por João Mattar.
Este é um daqueles livros que vale a pena ter, já que merece ser lido várias vezes, por causa de sua densidade teórica e da quantidade de exemplos e bibliografia analisados. O original é de 1997, mas mesmo com um tema que exige atualizações constantes, carrega alguns ensinamentos que não tendem a ficar datados.
O autor foi fundador e primeiro reitor da Fernuniversität – Universidade a Distância, na Alemanha.
O título já é provocador: poderíamos falar em uma didática do ensino a distância? Este é o tema da interessante introdução do livro, que defende uma didática pluralista para a EaD, incluindo os seguintes princípios teóricos: a tradição do ensino acadêmico, a didática do ensino superior, a didática da educação de adultos e da formação complementar, a pesquisa empírica do ensino e da aprendizagem, a tecnologia educacional, a telecomunicação eletrônica, os resultados científico-sociais e a didática geral, como disciplina pedagógica.
No cap. 1, “Levantamento de Dados”, Peters destaca cinco características que distinguiriam a educação a distância de outras formas do ensino superior: a combinação específica de algumas das formas de ensino e aprendizagem convencionais, o aproveitamento específico de meios técnicos (como a teleconferência e o computador pessoal), a combinação entre acessibilidade e interação (ou diálogo), o tipo especial de estudante e as formas específicas de institucionalização (single mode, dual mode ou mixed mode).
No cap. 2, “Distância e Proximidade”, o autor procura dar conta da dialética entre esses dois termos através de cinco modelos teóricos para o ensino a distância: da correspondência, do diálogo (ou da simulação escrita de uma conversação didática entre docentes e discentes), do professor (mais didático que os anteriores), do tutorial (ou aconselhamento) e da transmissão eletrônica (com audiocassetes, por exemplo). Por fim, ele discute o conceito de “distância transacional”, desenvolvido por Michael Moore, que envolve o maior ou menor diálogo entre alunos e professores, assim como o quanto o caminho a ser seguido no estudo está pré-fixado para o estudante (ou o que Moore denomina estrutura e autonomia).
No cap. 3, “Três Concepções Constitutivas”, Peters aprofunda o estudo teórico dos conceitos de diálogo, estrutura e autonomia.
No cap. 4, “As três Concepções na Prática”, o autor estuda as três concepções vinculadas à distância transacional em diversas universidades.
No cap. 5, “Concepções Modificadoras”, Peters começa analisando os conceitos de open learning e ‘educação permanente’ para, em seguida, tratar da transição entre o ensino industrializado para o ensino pós-moderno, tema principal de outro livro do mesmo autor traduzido em português, “A Educação a Distância em Transição”, do qual fiz uma outra resenha. É esta parte do livro que mais nos interessa, tanto que discuti e desenvolvi essas questões em meus livros ABC da EaD e Second Life e Web 2.0 na Educação.
O interesse inicial pelo ensino a distância se deve a empresários interessados em ganhar dinheiro, não em educar. Teria ocorrido, então, uma revolução nos métodos de ensino e aprendizagem, através da divisão e do planejamento do trabalho, tendo o ensino se tornado mecanizado (e mais tarde automatizado), padronizado, normado, formalizado, objetivado, otimizado e racionalizado. O ensino torna-se, em suma, industrializado, produzido e consumido em massa, através da alienação tanto do docente quanto do discente, e da utilização de uma linguagem não-contextualizada, para o que contribui decisivamente o modelo da Open University inglesa. Este modelo fordista poderia ser considerado ultrapassado.
O neofordismo envolve alta inovação no produto e alta variabilidade nos processos, mas pouca responsabilidade dos empregados. Não são mais produzidos grandes cursos, mas sim cursos menores que podem ser atualizados constantemente.
O pós-fordismo agrega à alta inovação na produção e à alta variabilidade nos processos, um alto nível de responsabilidade no trabalho. Os cursos devem ser produzidos on demand e just in time. A divisão do trabalho é, no limite, eliminada. Os cursos, dessa maneira, poderiam ser produzidos e adaptados rapidamente. Citamos então Peters:
“Isso, por sua vez, obrigaria as universidades a distância a modificarem igualmente seus processos de trabalho. Em lugar do desenvolvimento e produção na base da divisão do trabalho e sob controle central, seriam formados muitos pequenos grupos de trabalho descentralizados, com responsabilidade própria pelo desenvolvimento de suas propostas específicas de ensino, sendo, por isso, dotados de maior autonomia – também para fora. Mas o que é ainda mais importante: as formas clássicas de ensino e aprendizagem no ensino a distância (cursos padronizados, assistência padronizada) deveriam ser substituídas ou complementadas por formas muito flexíveis quanto a currículo, tempo e lugar (variabilidade dos processos). Conceitos como estudo autônomo, trabalho autônomo no ambiente de aprendizagem digital, teleconferência, aconselhamento pessoal intensivo, estudo por contrato e combinação com e a integração de formas do ensino com presença indicam em que direção poderia ir o desenvolvimento. Isso equivaleria a uma revolução.” (p. 208)
E mais à frente, o que talvez nos interesse ainda mais:
“Como a exagerada divisão do trabalho é revogada e se busca a descentralização, as clássicas equipes de desenvolvimento de cursos já não têm mais razão de ser. Em seu lugar são desenvolvidos cursos variáveis e de curta duração por grupos de trabalho em áreas especializadas e de trabalho com responsabilidade própria. Os professores universitários integram esses pequenos grupos de trabalho, que passam a ser responsáveis por todas as etapas de seus cursos, não apenas pelo planejamento e o design como também pela produção, distribuição, avaliação e pelo acompanhamento continuado do curso. Para isso também deveriam dominar técnicas de produção na área gráfica e de vídeo, o que, inclusive, é facilitado por modernos meios técnicos [...]. Enquanto que até agora os meios técnicos tendiam a favorecer a divisão do trabalho no ensino, com esses novos meios eletrônicos as operações podem ser novamente reunidas.” (p. 213-214).
Este capítulo ainda explora as características do ensino pós-moderno a distância, em que podem ser colocados em dúvida praticamente todos os pressupostos da educação, e que talvez só tenha condições de se estabelecer em novas instituições de ensino, marcadas desde o seu nascimento por princípios radicalmente flexíveis e inovadores.
No capítulo 6, “Informação e Comunicação”, Peters explora as inovações associadas ao progresso da tecnologia.
No cap. 7, “Modelos de Ensino e Aprendizagem de Instituições Específicas”, novamente o autor realiza estudo de casos em diversas instituições de ensino.
O livro termina com um capítulo curto, “Análises e Perspectivas”, que, apesar do título, fala muito pouco de futuro, seguido de uma variada bibliografia.
Enfim, um livrão!!

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